quarta-feira, 7 de maio de 2008

Xanana dará o seu melhor para dirigir Timor

Agora empenhada nas actividades da Fundação Alola, criada em 2002, Kirsty Sword Gusmão, a esposa do actual primeiro-ministro Xanana Gusmão diz, em entrevista ao PÚBLICO, estar consciente do papel do marido “neste momento crucial para o futuro” do jovem país. Kirsty é uma australiana que nasceu em 1966 na cidade de Melbourne e há sete anos casou-se com o mítico guerrilheiro timorense.Continua a considerar-se uma primeira dama (agora que o seu marido é o novo primeiro-ministro e que o Presidente Ramos-Horta não se encontra casado)?Em primeiro lugar, permita-me salientar que as presentes declarações são feitas em meu nome pessoal, como Presidente da Fundação Alola, por mim criada em Março de 2001 e não em nome do meu marido, Xanana, nem tão pouco do Governo.Claro que já não me considero primeira-dama! O título, aliás, nunca fez sentido na medida em que o estatuto de 'primeira-dama’ nunca foi reconhecido oficialmente nem recebeu qualquer financiamento por parte do Governo. Todo o trabalho desenvolvido pela Alola, em áreas como a advocacia, emprego, educação, saúde materno-infantil e assistência humanitária, tem sido financiado por doadores de todas as partes do mundo, individuais e institucionais.Como é que vê esta transição de Xanana da primeira para a terceira posição na hierarquia do Estado (depois dos presidentes da República e do Parlamento)?Encaro o cargo actual de Xanana essencialmente como um acréscimo de responsabilidades e de ocupação do seu tempo, em prejuízo da nossa vida familiar. Mas, é um sacrifício que nós aceitámos sem hesitação, na medida em que estamos conscientes da importância do papel de Xanana neste momento crucial para o futuro de Timor. Nem eu nem Xanana damos muito valor às posições de poder, a nossa maior preocupação é tentar contribuir para a melhoria das condições de vida do povo timorense, a que ele tem dedicado quase toda a sua vida. Xanana deveria estar já a descansar; mas a libertação do seu povo (agora da miséria) continua a ser a sua grande prioridade. Está convicta de que um Governo com base na AMP (ALiança com Maioria Parlamentar) tem condições para cumprir toda uma legislatura?Estou confiante que Xanana, bem como as outras pessoas que integram o IV Governo, darão o melhor de si próprias para governar o país até final do seu mandato. Por outro lado, é absolutamente necessário que sejam criadas as condições de estabilidade política e social que permitam mostrar ao mundo que os timorenses são capazes de governar o seu próprio país. Preocupa-a em particular o grande número de desalojados que ainda há em Timor-Leste?A questão dos desalojados é muito preocupante, principalmente pelas condições precárias em que os mesmos se encontram, há tanto tempo. É ainda procupante pelo facto da sua existência traduzir a falta de segurança e de estabilidade político-social que se tem vivido no país. Admite que dentro de dois a três anos o clima económico e social do país possa ser melhor do que é hoje?Tenho muita esperança que em breve o povo timorense verá as suas condições de vida melhorar e que, a médio prazo, se possa considerar que o clima económico e social do país sofreu realmente um impulso positivo rumo ao desenvolvimento e paz social. Com o empenho de todos – governo, oposição e sociedade civil – na defesa deste grande objectivo nacional, acredito que isso será possível. Pela minha parte, continuarei a contribuir para melhorar as condições de vida das mulheres e crianças, em particular, através do trabalho que a Fundação Alola vem desenvolvendo no sentido de melhorar a sua educação, saúde e rendimento e apoiando-as na sua luta por uma maior participação na sociedade.
Fonte: público, 20.08.2007

F. ALOLA: Mulher Forte, Nação Forte

Díli - «Feto Forte, Nasaun Forte», em português «mulher forte, Nação forte», é o lema da Fundação Alola, criada por Kirsty Gusmão, que se dedica à defesa e apoio das mulheres e crianças de Timor-Leste.
Em 1999, logo após o referendo pela independência, milícias indonésias mergulharam Timor-Leste numa onda de terror e violência, durante esta vaga sanguinária uma jovem timorense do Suai foi brutalmente violada, chamava-se Júlia dos Santos, alias Alola. Sensibilizada por este trágico episodio, Kirsty Gusmão, mulher de Xanana Gusmão, decide em Março de 2001 criar uma fundação para a protecção da mulher e solidariedade com o destino de muitas timorenses, que foram forçadas a passar a fronteira com milícias indonésias.
Hoje a Fundação Alola dedica-se a um largo leque de programas que se focalizam no apoio e defesa das mulheres e crianças timorenses, na educação e saúde infantil, confirmou em entrevista à PNN Meredith Buldge (Directora da área de Maternal Child Health Care) e Anne Finch (Chief Executive Officer), programas que exigem a aplicação de muitos meios financeiros e humanos.
Segundo as duas responsáveis Portugal e particularmente a Austrália têm demonstrado muito interesse pelas actividades da Fundação. No entanto a maior parte das doações vêm da Austrália, de instituições e iniciativas pessoais: «os australianos são muito sensíveis ao nosso programa de combate à mortalidade infantil». A fundação Gulbenkian é considerada também como um dos mais importantes doadores da Alola, a qual financia «dois dos nossos programas saúde infantil e desenvolvimento económico», um dos quais iniciou este em ano em Oecussi com formações sobre nutrição infantil. Outras áreas de intervenção, como relativas a advocacia e saúde infantil, são apoiadas também pela Gulbenkian além da Oxfam e UNICEF.
O único apoio português à Alola é da Gulbenkian, apesar da Embaixada de Portugal já demonstrado interesse em apoiar algumas iniciativas, confirmaram as responsáveis da Alola que consideram importante a necessidade de um incremento da contribuição portuguesa e sublinham que em vários distritos muitas tradições portuguesas continuam presentes, especialmente nos têxteis onde as timorenses continuam a aplicar cores e símbolos de inspiração lusa.
No entanto o objectivo principal da Alola permanece o apoio à mulher timorense, seja no campo da saúde e formação, mas também na protecção contra todo o tipo de violências e especialmente domésticas. «O problema de muitas mulheres timorenses é de não compreenderem o que são violências domésticas» explicam as mesmas responsáveis, «muitas mulheres pensam que é normal» o programa da Alola pretende ajudar as timorenses a identificar este tipo de problemas e apoiá-las a falar no assunto, «neste momento a polícia já está a seguir muitos casos, e apoia as vítimas de violência doméstica».
Também a educação é uma das prioridades da fundação criada por Kirsty Gusmão a qual já trabalha com cerca de 80 escolas no país, apoiando alunos e professores, que coordena as suas actividades com a comissão da educação nacional. Segundo as responsáveis da Fundação Alola a colaboração com as instituições nacionais foi incrementado e sublinham que o «Ministério da Educação tem novos desafios, novo sangue, e é provavelmente o mais eficiente dos ministérios timorenses», tornando agora mais fácil à Fundação Alola a relação e trabalho com os políticos locais.
Tiago Farinha (Jornal digital, edição 18.04.2008)